Apenas um Texto

Sem título

Fones de ouvido, olhos fixos no céu. Short jeans, camiseta de banda. Pés descalços, cabelo solto. Deitada na grama de seu quintal, ela ouve uma velha canção de rock. Os acordes, mais do que conhecidos, revelam partes de si mesma que nem ela própria conhecia. As nuvens estão com um formato estranho hoje. O céu está um cinza claro melancólico. Quando chega o refrão, ela canta baixinho a parte do vocalista. Sabia essa canção de cor. Tinha a absoluta certeza que ninguém no mundo deitaria na grama e ouviria música antiga. Não sabiam o que estavam perdendo. Próxima música, uma balada romântica dos anos 80, melosa. E isso a deixava triste. Carente. Por ter perdido o amor, por não ter sentido intensamente. Tinha uma certa inveja do vocalista, ele pudera amar tão apaixonadamente, pudera ficar cego por uma pessoa. Ela realmente achava que isso nunca aconteceria com ela. E resolveu mudar de música. Era mais fácil do que ficar nostálgica com momentos que nunca viveu, ficar infeliz pelo que não aconteceu. Os acordes de uma guitarra soaram em seus ouvidos. Ela reconheceu imediatamente, “Stairway to heaven”, de Led Zepellin. As primeiras lágrimas imediatamente caíram. Não sabia ao certo do que estava chorando, mas doía. E chorou até o fim da longa canção, até não sentir mais nada, até se sentir vazia. Jogou os fones de ouvido longe, pausou a outra música que estava começando. Levantou e estava pronta. Para encarar a vida, porque se sentia mais forte. A música era como sua droga. Supria as emoções que estava tão carente de sentir, e, no final, se desligava do mundo real. Era tudo o que ela estava precisando.