Expresso Paris-Bombaim: a nova coleção Métiers d’Arts da Chanel

Um banquete foi servido na Galerie Courbe do Grand Palais na tarde desta terça-feira (06.12), em Paris. Mas nem por isso os convidados sentados à mesa deixaram de olhar para a frente: afinal, era o desfile Métiers d’Arts da Chanel que passava por ali, trazendo a excelência artesanal da maison em uma coleção pré-inverno 2012.
Como o colunista da Vogue, Bruno Astuto, avisou, o tema escolhido desta vez foi “Paris-Bombay” – e daí as correntes presas ao rosto e os dreadlocks feitos no cabelo das modelos, que exibiram looks inspirados pela cultura indiana com cores vibrantes, tecidos ricos e ornamentos trabalhados nos mínimos detalhes. Veja a coleção na galeria e, abaixo, o relato de Astuto.

Acid India: o deslumbrante desfile da Chanel no templo da perdição
Quando o tema do desfile Métiers d’Arts da Chanel foi anunciado – Paris-Bombay -, todo mundo pensou que Karl Lagerfeld faria um mergulho literal na explosão de cores, frufrus, marajás, praticamente uma releitura demoiselle da novela de Glória Perez. Mas o Kaiser não nasceu ontem, e a coleção foi simplesmente uma aula de como se deve interpretar um tema de maneira sutil e surpreendente.
A Índia da Chanel não é a do Taj Mahal, dos Ganeshas e das oferendas ao Ganges, mas a descoberta desse país fascinante pelos olhos de uma viajante – no caso, Lady Amanda Harlech, que acaba de lançar pela editora alemã Steidl um livro com seus registros fotográficos da Índia. Não por acaso, as modelos surgiam ora com o cabelo repartido ao meio e coque baixo ora de dreadlocks na cabeça, como se tivessem entrado numa acid trip em Goa, pegado o trem para o Rajastão e terminado numa boate de Bombay.
Os colares eram soberbas releituras da joalheria clássica indiana, com pedras lapidadas de forma bruta, microperólas e tachinhas; as tiaras elásticas de cabelo tinham grandes pendentes sobre a testa; os botões têm elefantes esmaltados. Não faltaram brocados, jodhpurs, vestes de inspiração militar, saiões indianos, rendas metalizadas com desenho de Paisley. Quesito acessórios: os saltos passaram longe, as botas brancas foram tatuadas com henna pelo ateliê Massaro; e as bolsas-vedete foram novas versões da Boy Bag – trespassadas, com espelhinhos nas alças, ou em forma de clutch (eu, que tinha acabado de comprar a minha preta e branca da cruise, pirei de felicidade). Incríveis mesmo eram os fechos das bolsas de festa, que tinham uma minicaixinha de joias que se fecha com ímãs. O resultado, na verdade, foi uma miscelânea de estilos em que ravers, punks, marajás, hippies e socialites se fundiam num só corpo fashion.
A passarela começou, para variar, com tons claros (brancos, beges, off-white), seguiu pelo preto e branco, emendou no azul-marinho e vinho e nos saiu com um rosa-chiclete e um rosa-pink de parar o trânsito. Mas dominaram os lamês, os paetês, a mistura de prata de dourado, como vista num vestido-sári.
Agora vamos ao ambiente: quando chegavam ao Grand Palais, os convidados subiam um lance de escada rumo à Cour La Reine, que foi transformada num templo antigo indiano, onde acontecia um banquete (de verdade). Para cada quatro convidados, havia um garçom com um bule de chá e sucos. Três mesas compridíssimas com pétalas de rosa, acepipes indianos, docinhos, colares de flores, talheres de madrepérola, sousplats de prata, porcelana branca, copos e candelabros de cristal e prata. Um trenzinho com os Cs entrelaçados rodava pela mesa central soltando fumaça e carregando garrafas de azeite nos vagões. No décor, cascatas de frutas e arranjos monumentais de cravos e rosas brancas. Os convidados, como as atrizes indianas Freida Pinto e Sonam Kapoor, a cantora Cat Power e  a it-girl Caroline Sieber, não paravam de comer – alguém pode nos culpar? Queridos, depois desse espetáculo único, onírico e magistral, virei hindu para sempre. De Chanel, é claro. (BRUNO ASTUTO, de Paris)